21/03/2016 11h08

Em bordel a céu aberto, sul-mato-grossenses faturam R$ 1 mil em uma tarde

Danielle Valentim

Imagens: Marcus Mesquita

Em um dos maiores “bordeis” a céu aberto de Mato Grosso, localizado em Várzea Grande, prostitutas e travestis chegam a faturar R$ 1 mil por dia. Entre as profissionais, uma douradense e uma travesti campo-grandense falam dos desafios da "vida fácil", em um lugar conhecido historicamente pela violência. O "Zero Quilômetro" funciona “full time”, ou seja, 24 horas por dia. 

Há dois anos, depois de se separar do marido, Dani Barros, de 26 anos, saiu de Dourados (MS) com destino ao Zero Quilômetro e hoje realiza de 8 a 10 programas no valor de R$ 100 a meia hora, em uma única tarde. Ela contou ao site mato-grossense Midia News que possui clientes fixos, a maioria  homens casados, que pertencem à "classe média alta", como políticos e empresários.

A jovem trabalhou como prostituta em Mato Grosso do Sul durante seis meses, mas decidiu sair do Estado para que a família e a filha de apenas quatro anos, não descobrissem sua escolha. “As contas começaram a bater na minha porta. E, desesperada, aceitei o convite de uma amiga, ainda lá em Dourados, para fazer um programa. O dinheiro rápido atendeu às minhas necessidades e atende até hoje”, disse.
 
Ela afirmou que pretende sair do ramo, daqui a dois anos, assim que terminar a faculdade de Educação Física. “Para mim, é uma profissão restrita até porque, quando chego na minha casa, esqueço tudo que acontece aqui, cuido da minha filha, faço janta, vou para a academia, para a faculdade, tenho uma vida normal, tranquila”, afirmou.
 
Dani afirma nunca ter sido agredida, mas já presenciou travestis e outras prostitutas passando por essas situações.

POR LUXO

Já a travesti Michele de Freitas, de 24 anos, contou que entrou para a prostituição para poder sustentar os seus "luxos". Natural de Campo Grande, trabalha no Zero Quilômetro há 10 anos e afirma que nenhuma outra profissão lhe daria o dinheiro necessário para poder viajar, sair com os amigos, ter uma casa e um carro.
 
Conforme ela, a renda mensal chega a R$ 15 mil. Seus clientes são da maioria da classe alta, mas Michele também disse ficar com drogados. “Eu trabalhava em um salão e o meu sonho era ser travesti. Mas a profissão que eu tinha não me dava condições de pagar as plásticas que eu queria fazer para poder me transformar em uma travesti. Por conta disso, resolvi fazer programa”, contou.
 
Michele criticou a sociedade que tem preconceito com a sua escolha de vida e também aconselhou outras travestis.“A população acha que por fazer programa a pessoa pode não ter uma boa índole. Falam mal, mas depois estão todos aqui. A minha forma de trabalhar é muito clara e objetiva. Sou muito educada, o que eu combino é o que eu faço, se algo não me agrada eu não faço já sou bem direta, então as pessoas já saem comigo ciente do que vai acontecer”, relatou.
 
ZERO QUILÔMETRO
 
O comércio de prostituição no Zero Quilômetro começou com um posto de venda de combustível, na década de 60. O estabelecimento servia como ponto de apoio de caminhoneiros em viagem.
 
Hoje, 50 anos depois, os caminhoneiros foram substituídos, em sua maioria, por homens casados e até aqueles que se apresentam socialmente como heterossexuais e que, só lá, assumem a homossexualidade reprimida.
 
Por conta da prostituição, vários motéis e bares foram instalados na região. Durante o período em que a reportagem esteve no local, foi possível descobrir vários “mitos” e “verdades” da profissão.
 

Por exemplo, segundo as prostitutas, não há disputa de pontos, como a maioria pensa. Elas garantiram não existir “cafetões”, aquelas pessoas que gerenciam a prostituição, muito embora a Polícia Militar desconfie dessa afirmação. Afirmaram ainda, não ser usuárias de drogas. 

 

INSEGURANÇA

Além da prostituição, a região do Zero Quilômetro abriga o tráfico de drogas e, por consequência, crimes de roubo e homicídio. A moradora Mara Cristina, de 53 anos, afirmou que não se incomoda com as profissionais do sexo, o problema é que sua casa já foi assaltada três vezes e no último caso, o crime, acabou tirando a vida do seu marido, de 57 anos.
 
“Os bandidos jogaram ele não chão e deram um tiro do lado dele, o estouro da bala explodiu ele por dentro”, contou. O comandante 4º Batalhão da PM de Várzea Grande, tenente-coronel Januário Batista, garantiu que há policiamento na região do Zero Quilômetro diariamente e revelou que o bairro tem pouca incidência de crimes contra o patrimônio e a vida.
 
Conforme o comandante, neste ano não houve nenhum registro de agressão e violência sexual. Segundo ele, ocorreu apenas um homicídio em janeiro, porém a vítima tinha sete passagens pela polícia.
 
O coronel ainda afirmou que o 4º Batalhão está realizando um trabalho de inteligência para poder identificar traficantes e cafetões  que atuam no local. Ele lembrou que gerenciar e ter casas de prostituição é crime.
 
“O que nós precisamos é criar canal de comunicação com a sociedade dali, para que essas informações cheguem até nós, porque sem informações nós não conseguimos ter ciência do que acontece”, afirmou.
 

A secretaria de Municipal e Saúde informou que sempre faz ações na região para orientar as profissionais do sexo quanto à necessidade da utilização do preservativo. Os nomes utilizados nesta reportagem são fictícios, escolhidos pelas próprias personagens. 


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